Heróis da Capital – 1.Doença

As doenças são muitas. Mas isso, meu amigo, todos sabemos. Algumas assolam regiões inóspitas, outras devastam continentes. Muitas, simplesmente, conhecemos de ouvir falar, outras sentimos na pele e nos curamos ou morremos em um hospital nem sempre tão limpo.

A doença de que falo nesse caso, não se assemelha a nenhuma das que menciono acima. Não está nos catálogos médicos e não se divulga em grandes emissoras de televisão. A enfermidade que me preocupa não é transmitida por mosquito, nem incubada devido à um vírus.

Minha preocupação se inicia e se encerra com a curta história de Emerson e Requião, com a dependência que este possuía daquele e com a suposta felicidade dos infelizes.

Requião era dono de uma fábrica de móveis, Emerson, seu funcionário. O astuto trabalhador ouvira falar que seu chefe era um grande homem, mas nunca o vira. O mandachuva sabia que dependia de seus funcionários e até cumprimentava alguns entre seu carro e sua sala, mas demorou alguns meses para não trocar o nome de sua secretária pessoal.

Todos diriam que a vida de um era mais simples do que a do outro, que um carregava mais responsabilidades do que outro, mas que a ostentação entre o carro importado e a bicicleta enferrujada carregava também a importância de ser que se é.

Ambos trabalharam incessantemente para cumprir suas metas e satisfazer a quem quer que tivessem que provar rendimentos, sem que, para isso, fosse poupado dia ou noite. Até o dia em que não resistiram.

O quadro clínico começou quando abandonaram seus sonhos. Emerson largou a faculdade de arquitetura por não conseguir bancar o alto custo do semestre. Tendo um novo emprego que garantiria seu sustento, sua inspiração se foi junto com o grande arquiteto que esperava ser no início de sua juventude. Requião, por outro lado, estudou o que quis, mas abandonou seus ideias revolucionários quando descobriu que a cor do dólar fazia seus olhos brilharem com a falsa perspectiva de sucesso.

O que veio a partir daí não foi novidade. A necessidade de garantir um lugar na sociedade não se deteve em seus sonhos, mas em tudo que envolvia suas vidas. Um tinha o sonho da casa própria que despertou em um mar de dívidas, outro, a cobrança de lucrar ainda mais com o que já era milionário.

Por motivo ou outro, a ausência, qualquer que fosse, era comum em suas vidas. Nunca se contentavam com o que tinham, e o que tinham, fugia de suas mãos em um piscar de olhos e uma virada de cabeça para a esquerda.

Cansados de lutar diariamente uma batalha que nunca teria fim, foram sufocados por sete palmos de terra seca sem levar nada mais, nada menos, do que sete ave marias resmungadas cada.

Um dos enterros saiu em uma nota de jornal. Devia satisfação a muitos. O menos importante, ficou apenas na memória de quem chorava baixo ao pé de uma santa desbotada.

Dizem que morreram de qualquer coisa. Eu acho que morreram de sufoco. Overdose de tédio.

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